Católicos e protestantes partem de pressupostos diferentes, tá bom. No entanto, a questão é que, ao longo da história, a Igreja Católica tem sido a guardiã da Revelação, tanto a Escritura quanto a Tradição, como você bem mencionou. A fé católica não apenas reconhece o Espírito Santo como Mestre, mas também ensina que Ele age plenamente dentro da Igreja, *especialmente através do Magistério*. Não vemos o Magistério como substituto do Espírito Santo, mas como *instrumento do Espírito*, pois a Igreja foi *estabelecida por Cristo para ensinar, santificar e governar, conforme vemos em Mateus 28,18-20*, onde Cristo delega a missão de batizar e ensinar aos apóstolos. Não é uma autoridade humana, mas uma autoridade dada diretamente por Cristo.
Se os Bereanos são elogiados por verificarem nas Escrituras o que Paulo ensinava, isso nos mostra a importância da Escritura, mas também não podemos ignorar o contexto em que isso ocorreu: Paulo estava ensinando o evangelho na *autoridade que Cristo lhe confiou*. Ou seja, a Escritura não funciona isoladamente, mas está sempre ligada à *autoridade que a interpretou e proclamou*, como a Igreja fez desde o início. A autoridade não foi dada à Bíblia em si mesma, mas à Igreja que a definiu e transmitiu.
Quanto à questão de quem ensina, *a Escritura nunca diz que o Espírito Santo ensina individualmente fora da Igreja*. Pelo contrário, Jesus promete que o Espírito Santo guiará a Igreja em toda a verdade (João 16,13). *A Igreja é a coluna e sustentáculo da verdade* (1 Timóteo 3,15). Claro, o Espírito Santo nos dá discernimento, mas *Ele age por meio da Igreja e do Magistério*. O Espírito Santo não nos dá uma Bíblia para que cada um a interprete sozinho, mas nos deu uma Igreja, com uma autoridade dada por Cristo, para ensinar, interpretar e aplicar corretamente a Palavra de Deus.
Em relação à pedra sobre a qual a Igreja é construída, o próprio Pedro afirma que Jesus é a Pedra angular (1 Pedro 2,6). Mas isso não anula o papel de *Pedro como líder visível da Igreja, a quem Cristo confiou as chaves do Reino dos Céus (Mateus 16,18-19)*. Ele é, de fato, uma pedra viva, mas foi o apóstolo Pedro quem foi *nomeado por Cristo* como fundamento da Igreja visível. A Igreja Católica não vê Pedro de forma alguma como substituto de Cristo, mas como *aquele escolhido por Cristo para liderar a Sua Igreja*, com uma *missão única que os outros apóstolos não tinham*.
Sobre a autoridade do Antigo e Novo Testamento, concordo que a preservação das Escrituras é de fato algo impressionante. No entanto, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento *foram preservados dentro da Tradição da Igreja*, que é a guardiã do depósito da fé. Sem a autoridade da Igreja, não teríamos nem o Novo Testamento nem o cânon completo. A Igreja Católica reconheceu, definiu e preservou o que é inspirado e o que não é. Isso não diminui a autoridade da Bíblia, mas a coloca no contexto da Tradição, que é indissociável dela.
E sobre a interpretação da Bíblia, é verdade que todo intérprete autêntico deve se submeter às Escrituras. Mas como você mesmo colocou, há uma grande diferença entre *interpretar as Escrituras a partir da tradição viva da Igreja*, que foi confiada com autoridade por Cristo, e interpretá-las *isoladamente, sem a luz da tradição apostólica*. É por isso que a fragmentação no protestantismo (com milhares de denominações, todas com interpretações diferentes) *é uma evidência de que o princípio de Sola Scriptura é insustentável*. Quando as Escrituras são lidas fora da comunidade que as recebeu e preservou, surgem divergências.
Se a Escritura sozinha fosse autoridade suficiente, por que Paulo diz que *a Igreja é coluna e sustentáculo da verdade* (1 Tm 3,15), manda *conservar as tradições orais e escritas* (2 Ts 2,15), e os apóstolos *se reúnem para decidir questões de fé* (At 15,2-6)? Não seria claro que a interpretação depende de uma autoridade visível, não apenas de leitura individual?